terça-feira, 20 de novembro de 2007

Pickpocket - O Batedor de Carteiras (1959)

LaSalle e Green: o homem salvo pelo amor

Ainda não conhecia o diretor francês Robert Bresson, mas fiquei impressionado com esse seu Pickpocket, que vi hoje, principalmente pelo seu rigor absoluto, tanto na estética quanto nas atuações. Seco e objetivo (o filme dura precisos 75 minutos), ele narra a história de Michel (Martin LaSalle), um rapaz que decide fazer da atividade de batedor de carteiras sua profissão. A tela transpira disciplina, na construção mecânica da narrativa de Bresson: rouba, é preso, é solto, se apaixona, é perseguido, rouba novamente, é preso. Não que essa descrição pretenda simplificar a obra, de maneira alguma. Aliás, desse estilo cirúrgico e contemplativo de Bresson surge uma das cenas mais bem montadas de todo o cinema, a que Michel, juntamente com seus comparsas, fazem uma verdadeira "limpa" nas carteiras dos passageiros de um trem. Tudo é coreografado com uma perfeição impressionante, alternando os movimentos sutis dos ladrões com os planos-detalhe nos bolsos das calças e dos paletós. Tudo fluído, suave como uma valsa. Paradoxalmente, essa dança toda é construída com pouquíssimos movimentos de câmera, assim como o filme no geral, que também é permeado pela narração do protagonista, esporádica e com zero de entonação. É interessante também que o filme abre com um texto, explicando que o filme não é um thriller, apenas a história de um homem que seguiu um caminho atravancado que, apesar de tudo, era a única maneira de uni-lo a sua parceira (Jeanne, interpretada por Marika Green), fato que é confirmado na frase final: "Oh, Jeanne, para finalmente estar junto a você, que caminho estranho tive que tomar". É o único momento no qual o filme revela uma aproximação mais carinhosa entre os personagens, e que Bresson dá margem a uma expressão de sentimento mais genuína, acalorada (a bela troca de beijos nas grades da prisão), à parte dos rostos apáticos e do desenrolar frio de antes. É a história de um homem salvo pelo amor, e a sacada do cineasta francês de desenvolver todo esse percurso gélido para justamente fazê-lo desembocar nesta maravilhosa cena final, é o toque de mestre de uma obra especial. Maravilha.

2 comentários:

  1. oh Murilo da silva e silva estou aqui para elogiar seu blog! vc fez bem em mostrar seu acervo de videos, comentarios, texto etc etc! mesmo eu nao entendo de nada praticamente as vezes eu tento ne!!!!
    bom parabens menino!!!!
    bjobjo

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  2. Bresson é mestre. Recomendo fortemente A Grande Testemunha, Lancelot du Lac e O Processo de Joana D'Arc.

    Achei o blog pelo orkut (às vezes posto na comunidade Cinemascópio) e vi que gosta do Michael Haneke. Não tem nem erro, baixe tudo do Bresson que vai se acabar ali. O Haneke é praticamente uma versão torturadora de espectadores do Bresson, é sem dúvida a influência mais forte do cinema dele.

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