sábado, 7 de junho de 2008

Imersão e referência em Kubrick e Herzog


Impressionante como alguns cineastas têm a capacidade quase que sobrenatural de desprover sua imagem de qualquer atributo referencial e transportá-la a um universo particular onde fica em constante estado de sublimação e imersão. Kubrick foi assim, especialmente em 2001 e Barry Lyndon. Claro, tínhamos as "referências": o deserto e o espaço, e a Inglaterra do século XVIII, respectivamente. Mas elas se perdem, em determinados momentos de cada obra, para dar lugar ao completo estado imersão pela qual, a essa altura, nós espectadores já fomos completamente tomados. Perdemos a capacidade de construir associações costumeiras entre lugares, pessoas ou estados de espírito, quando normalmente nos expomos à imagem cinematográfica. Isso me veio quando vi, em seguida, três obras seminais de Werner Herzog (e de todo o Cinema): Aguirre - A Cólera dos deuses; Nosferatu - O Vampiro da Noite e Fitzcarraldo. Como em Kubrick, são obras que levam o espectador a outro nível de percepção audiovisual: quando nos deparamos com um barco a vapor de 300 toneladas sendo içado morro acima, na Amazônia peruana (taí outra referência que rapidamente dá lugar ao "imersivo"), sentimos que aquilo ultrapassa qualquer noção pré-estabelecida do que é preparar, filmar ou mesmo, "receber" uma imagem como aquela. Engraçado que o próprio Herzog, gênio que é, declara num dos documentários que acompanham o DVD de Aguirre que a nossa percepção do filme não pode ser afetada pelos aspectos extrínsecos do mesmo: se levássemos em conta todo o trabalho hercúleo de elaborar uma cena como a descrita, ou mesmo os constantes e intensos conflitos de Klaus Kinski (ator com talento maior que o mundo) com o diretor e a equipe, nossa visão daquilo que presenciamos na tela seria outra; em outras palavras, Herzog diz que o filme tem de se bastar como filme, como o resultado da conjunção imagem-som, e tirar daí sua força. Mas é impossível. O que Herzog, assim como Kubrick, nos causa, é aquela sensação de estar preso ao filme, assim como ao seu histórico, e ao fascínio da descoberta de todo seu processo de produção e formação. Enfim, os filmes de ambos, ao privilegiarem o imersivo em detrimento do referencial, se tornam, paradoxalmente, referências artísticas atemporais.

3 comentários:

  1. Eu não sei se sou apenas eu, mas percebo tb essas características visuais que você mencionou na cinematografia do Terrence Mallick, que para mim é outro gênio que completa essa trilogia da imagem.

    Saudações cinéfilas.

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  2. Nossa, bem lembrado! Mallick também está a altura deles, sempre construindo aquelas imagens hipnóticas.

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  3. O grande problema é que o Herzog é sempre o primeiro a comentar as bizarrices que acontecem durante as filmagens. Fitzcarraldo mesmo tem um documentário sobre a turbulenta produção: Burden of Dreams. E tá lá o Herzog soltando frases memoráveis, falando sobre a selva, a equipe e tudo mais.
    Sobre a relação entre os dois diretores, acho que Aguirre se aproxima MUITO de O Iluminado em alguns pontos. Ambos têm protagonistas que se afundam cada vez mais em espaços estranhos e consequentemente numa loucura bizarra - as duas com relações históricas: Aguirre quer reencenar a História na selva, Jack quer repetir a História no hotel. As câmeras observadoras, a música hipnótica e até as sequências iniciais (apresentando o espaço do alto), tem bastante coisa em comum ali.

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