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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Original Stories - Parte II

Centenário de Morte - Parte II

por Murilo Conte de Lima

Insone, ele conseguiu engatar a primeira marcha, ainda não percebendo a tragédia que havia ocorrido logo atrás. Talvez não pudesse suportar se tivesse visto, e nesse momento, sua ignorância se tornou preciosa. Na janela do passageiro, alguns corvos começavam a pousar, e se dispunham numa fila ávida por aquele cheiro que lhes atravessava o apetite. Simplesmente acelerou; seus braços dormentes não permitiam que guiasse o volante, e este se tornou uma entidade involuntária. O carro acelerava, enquanto Atlântida, ainda inundada, esperava pela sua salvação. Naquela pressa, não se poderia saber o resultado final: se as águas, intrépidas, dariam a trégua necessária para que aquele pedaço de terra sobrevivesse. A natureza tinha sua força, mesmo trágica e repentina. E foi de súbito que o veículo encheu-se d’água, e uma enorme onda o tomou por baixo e o impulsionou para acima dos prédios, dos pássaros, dos corvos. O táxi reluzia; o continente inundava como nunca. Flutuando, o corpo do rei estava a sua frente, como se impedisse sua passagem num oceano interminável e aberto. Estava monstruosamente inchado, exageradamente estufado como um enorme boneco de vodu.

Abriu a porta. Saiu nadando de costas. As horas já haviam passado, muitas. O céu lhe aparentava uma placa de poliestireno cheia de ranhuras e esparsamente corroída. Parecia que estavam bem próximas de seu rosto, aquelas nuvens ricamente texturizadas com o banho da luz do sol. Eram vividamente estruturadas naquele espaço infinito, e seus gomos, bojudos, palpáveis, macios como a melhor esponja, extraordinariamente aerados e doces; como se submetidas à maceração, provavelmente resultariam no perfume celestial ou na bebida definitiva. Quando se aproximou do rei, aquele objeto orgânico gélido, inchado, seu olhar pareceu serrar-lhe ao meio e liberar o odor da morte. Aquele aroma polvilhou todo o ar de forma fulminante, impregnou a espuma amarela e desbotada e exposta dos bancos do táxi, incrustou no tecido morto das pernas que repousavam no assento manchado do passageiro. Tudo estava tomado.

Ele tentou voltar ao táxi, mas Atlântida havia inundado por completo. Toda aquela água, porém, aplacou súbita e definitivamente toda molécula daquele cheiro, como uma seringa que suga com precisão milimétrica o sangue grosso e abundante de um homem gordo, e é tomada por aquele vermelho ofuscante. Se alguém pudesse olhar de cima, lá estaria ele, flutuando sem rumo, ao lado do cadáver já podre do rei.

Quando se deu conta, a música havia cessado. Seu olhar passeou de um lado a outro, e mirou na carcaça do táxi que boiava, distante. Ao redor, os objetos desprendidos do veículo formavam um círculo, que dançava conforme a correnteza os dispersava. Um relógio de parede, com um enorme tampo de vidro que cobria seus ponteiros, estava infestado de formigas. Ainda funcionava. Os dois alto-falantes do automóvel, emborrachados e adornados por uma borda de metal enferrujado, estavam ali soltando suas últimas vibrações, como um coração que luta para continuar palpitante.

Aquilo o intrigou de tal maneira que o incentivou nadar incansáveis metros para alcançá-los e para que ele pudesse ao menos se agarrar a algum fiapo de matéria. As águas imensas já o haviam exaurido, e ele já estava praticamente idêntico ao pobre taxista cujo corpo desaparecera naquela imensidão e levou junto o aroma fétido de carne morta. As duas caixas de som palpitantes ainda estremeciam e ele sentia que teria suas pupilas estouradas pelo azul interminável e ondulante antes que pudesse chegar ao objeto de sua curiosidade. Suas pernas cansadas, endurecidas como rochas, os músculos como fibras de carne seca emaranhados irreversivelmente num amontoado de nós. Seu corpo absolutamente drenado, branco, a pele dos dedos descascada profundamente, carne visível. Ao contrário das nuvens doces, o sal da água era impiedoso, e ele bebeu-a desgraçadamente.

Deu duas braçadas longas, e finamente conseguiu colar seus dedos nas duas pequenas fontes sonoras. Pegou-as como a duas metades de coco. Atrás, os fios desencapados. Fincou seu olhar e seu sorriso como uma enxada em terra macia. Em suas mãos, elas ainda vibravam em intervalos irregulares, tossindo, reverberando em socos abafados, mudos. Já estava completamente desfalecido, pernas e braços esticados, corpo cheio de sal, estufado como outro boneco de vodu, como outro rei completando seu centenário de morte nas águas. As roupas corroídas, a mulher de Atlântida havia se afogado. De barriga para baixo, com as mãos curvadas para a mesma direção, com os dois alto-falantes ainda colados aos dedos, as duas metades de coco com suas aberturas atoladas na água parecendo abafar o som.

Aconteceu um estrondo tremendo, luminoso e barulhento, cerimonial, ensurdecedor. Das duas mãos mortas, agora borbulhava sangue. Espesso, saía das caixas, voluptuoso, impressionante. Sangue de rouxinol.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Original Stories - Parte I

Centenário de Morte

por Murilo Conte de Lima


Faziam exatamente cem anos da morte de D. Pedro I. Era um rei-momo. Convidado ao cerimonial, num dos castelos mais detalhados de Portugal, fui de bom grado. Peguei um táxi até a esquina do referido local. Desci, com as pernas meio bambas, sabe-se lá o porquê, mas foi a única coisa que senti quando saí do carro. Queria ir caminhando naquele um quarteirão, e ainda economizava alguns centavos da corrida. Os táxis curiosamente estavam dourados, e pensei que aquilo fosse apenas uma impressão, tudo muito passageiro. Caminhei alguns passos e, dos meus joelhos, fortes e rápidos, surgiam espasmos de tremedeira; a saliência dos ossos, exageradas. Olhei para o semáforo da esquina, estava azul. Nada demais. Cheguei à recepção. Usava uma calça marinho com pregas, uma camisa xadrez reluzente. Entrei, não havia guardas.

No hall que dava acesso ao vasto salão onde o cerimonial fúnebre ocorria, haviam algumas senhoras vestidas de vermelho num dos cantos, três para ser específico, que acariciavam de forma curiosamente nervosa uma estátua de pedra. O piso era de mármore deslumbrante, da cor do plasma, ou da aurora. Fui me aproximando daquele espaço enorme, cujas paredes revelavam entalhes de madeira que datavam do século XV. Meus sapatos estavam brilhosos, exageradamente lisos, e na minha viçosa curiosidade de observar aquele comportamento insólito, escorreguei. Meu dedo médio entrou no brinco de uma delas, enganchado, e com a força impiedosa da gravidade, rasguei violentamente uma das orelhas. A mulher caiu paralelamente a mim e, com a cabeça repousada ao lado de meus pés, começou a estrebuchar-se convulsivamente. A dor parecia-lhe atacar de tal modo que se podia ouvir o sangue escorrendo por aquele belo chão polido. A posição de suas mãos juntamente à cabeça remetia a figura de alguém que estava louco para ouvir o que acontecia do outro lado de uma parede; espionagem. Ela se contorcia de modo que eu não podia mais ver o lado esquerdo de seu rosto, colado no chão de maneira monstruosamente magnética, como ímã em geladeira.

Fiquei paralisado por uns trinta e cinco minutos, antes de finalmente levantar-me cambaleando, agora não só os joelhos, mas as duas pernas inteiras estremecendo me davam sensação sufocante de agonia e desespero. Corri em direção ao salão. Dois vasos enormes de cristal adornavam a entrada, com rosas gigantescas em seu interior. Monumentais, convergiam ao fundo, no túmulo do rei. O recinto, estranhamente vazio, parecia abrigar alguns poucos vultos saudosistas. Avistei uma senhora que parecia guardar fervorosamente aquele mausoléu. Todo revestido de ouro, cuidadosa e intensamente polido, mas com os cantos descascados. No chão, farelos de tinta seca.

Aproximei-me vagaroso. Meu olhar convergia junto aos vasos, mas meu pensamento voava longe. Sem hesitar, quase colei meu rosto ao da senhora, observando-a com o rigor de um maestro e a loucura de um homicida. Vertia lágrimas, a água escorria sobre seu nariz, cujo osso aparentemente quebrado criava um desvio para que o líquido vestisse lentamente suas faces exageradamente rugosas. Não entendi a tristeza daquela mulher, muito menos diante de alguém em estado de putrefação há cem anos. Perguntei, respondeu que não havia parentesco, nem distante. Frustrado, voltei ao hall. Minha pele estava da cor de um afresco azul-claro observado de longe, pálido, mudo.

Voltei à rua de entrada: lá estava o motorista, caído ao lado da porta do passageiro, bêbado, mas engasgado de sangue. Seu corpo desenhava à vista de quem passava algo como um alce alvejado com um tiro pelas costas. Dobrado, cabeça curvada para o lado esquerdo, o pobre homem gorgolejava frases abstratas, incompreensíveis ao mais cuidadoso ouvinte. Seus olhos, vazios e banhados anormalmente por um emaranhado avermelhado de veias, já davam sinais de que até os gorgolejos afobados iriam cessar. Já morto, corri e abri a porta do lado oposto. Absurdamente próximo do pedal da embreagem repousavam três mini garrafas de uísque barato. No console, três moedas, ainda cheirando a suor velho e borracha. Um broche encravado numa das entradas de ar-condicionado dizia: “Good Morning!”. No assento do passageiro, a espuma amarela transbordava através do talho no tecido. Apressado, puxei o cadáver para dentro. As pernas e os pés agora repousavam sobre o banco; a coluna dobrada e os braços arranhados e sujos de asfalto descansavam sobre a barriga ensangüentada. Olhei para o corpo disposto daquela forma medonha, e um arrepio frígido subiu-me pela espinha.

Num impulso, empurrei violentamente com o pé todas as garrafas e desobstruí a embreagem para que pudesse engatar a primeira marcha e sair. Dei a partida, mas o motor não respondia, apenas emitia sons morbidamente similares aos gorgolejos do motorista. Tentei mais algumas vezes, mas o carro continuava ali, à frente do palácio, como um dos vultos a observar o rei, paralisado dentro de seu estado calamitoso. O táxi estava, de fato, dourado, não era nada provisório como senti inicialmente. Não conseguia desviar o olhar daquele corpo, ali, tão próximo de mim como nos dias em que os motoristas conduziam os avós e netos para o parque mais próximo, sendo que o senhor sempre se sentava no assento dianteiro, lado a lado com o condutor, e iniciava conversas calorosas no caminho sobre sua infância no campo, as pescas aventurescas nos riachos profundamente azuis e cintilantes ou o prazer em cuidar das três crianças.

Meu corpo estava descompensado, e não conseguia de maneira alguma restabelecer o equilíbrio mental, tanto menos físico. O dia havia me deixado com desgaste imensurável, desde os pés que latejavam como se cada um carregasse dentro de si um coração arrítmico, até a cabeça, dentro da qual os pensamentos borbulhavam com a ansiedade de um jovem expedicionário, porém com a constatação cansada da frustração.

Foi então que liguei o rádio, o único consolo dentro de um veículo cuja situação deprimente me paralisou de tanto cansaço. A música começou etérea, como um hino celestial, e a voz serena que narrava a estória da inundação de Atlântida se estendeu por minutos, com sua entonação mitológica, e a leveza que atravessava os ouvidos prazerosamente, como um sopro de vento fresco umedecido com o orvalho matinal de setembro. A melodia finalizava com refrões apaixonados sobre uma mulher que estava lá no fundo das águas, louca para ser resgatada, chegar à superfície e deter o dilúvio que levava aquele belo pedaço de terra ao esquecimento, à insignificância histórica e ao saudosismo sentimental oco. Que poder era esse, ele não sabia. Mas sentiu uma onda de calor percorrer toda sua espinha repentinamente, num oposto ao que sentia quando olhava, mesmo de relance, àquela figura triste e morbidamente posicionada ao seu lado. O segundo gole do uísque já não o esquentou tão mais quanto o primeiro; o ardor agora parecia planar de um lado ao outro de seu corpo, constante como a chama de um balão.

A marcha fúnebre tocou. A senhora de orelha rasgada saiu, sendo amparada pela outra cujo nariz carregava o osso sulcado. Ambas pareceram-lhe fazer um leve aceno, o qual ele respondeu cordialmente com um gesto de clemência. Mesmo naquele estado de torpor, ele conseguiu enxergar uma pequena abertura ao lado do painel, envolta em metal e já levemente corroída pela ferrugem. Pegou uma das moedas e a inseriu ali, despretensiosamente. Foi então que, numa surpresa particularmente abstrata, viu os comandos do carro se ligarem; o painel agora iluminou-se como um suntuoso letreiro de neon púrpura, e o motor roncava harmoniosamente. As senhoras, que contornavam o veículo pela parte traseira, foram igualmente surpreendidas por um intenso solavanco, cuja força as derrubou no asfalto de relevo perversamente acidentado e escuro, cujas cavidades irregulares formavam pequenas lombadas finas, as quais configuravam o formato de uma lâmina afiada. Os pescoços de ambas foram perfurados.

(continua)