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sexta-feira, 24 de julho de 2009

Horas de Desespero (William Wyler, 1955)

Horas de Desespero (The Desperate Hours, 1955), de Wiliam Wyler, é um filme notável que evidencia a incrível habilidade do diretor de Ben-Hur em concentrar o suspense praticamente num único espaço (como fizera antes com, por exemplo, Chaga de Fogo, com Kirk Douglas), e fazer dele um ambiente rico na construção de relações humanas.

Isso porque, já na cena pós créditos iniciais, temos o garoto que quer ser tratado como homem maduro (esbraveja ao ser chamado de Ralphy, no diminutivo), recusando o beijo do pai e exigindo-lhe um aperto de mão. Tudo isso durante um rotineiro café da manhã. O que é excepcional na direção de Wyler é a contraposição que ele realiza logo em seguida ao “infantilizar” a própria filha que pretende se casar. “Ela é só uma menina“, diz o patriarca Dan Hilliard, interpretado pelo Fredric March. Numa cena aparentemente tão simples, Wyler já estabelece lindamente as bases para seu drama, adaptado de uma peça de Joseph Hayes (e roteirizada pelo mesmo).

Logo o ambiente familiar é invadido por Glenn Griffin e mais dois comparsas, que acabaram de fugir da cadeia. Griffin, interpretado com o cinismo e o talento natos de Humphrey Bogart, logo toma o controle da situação e faz toda família refém. A relação que se desenha entre a tradicional família de subúrbio americana e a característica patronal de Bogart para com seus comparsas é marcante não apenas pelo fato de um deles ser seu o próprio irmão (Hal), mas porque no fundo a situação com o garoto no início se reflete – Hal busca conquistar o respeito de Glenn como forma de provar sua integridade, e não à toa ele é o primeiro a desistir do assalto.

A direção de Wyler é precisa ao abusar de planos médios e da profundidade de campo (foi o primeiro filme fotografado em preto e branco a usar o formato VistaVision, um concorrente do Cinemascope no formato widescreen) dentro da casa, sempre nos deixando a mostra, mesmo nos embates entre Bogart e March, as reações daqueles que estão à volta: a resignação de Hal, ou o medo estampado no rosto da esposa de Dan. São opções que valorizam o trabalho dos atores e deixam o espectador livre para varrer o quadro em busca de seu próprio “recorte” da tensão que permeia todo o filme.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

As chagas do ofício

Chaga: drama policial furioso de Wyler


Não poderia deixar de escrever sobre esse drama policial cortante de William Wyler, ao qual assisti ontem. Chaga de Fogo (1951), baseado na peça teatral da Broadway escrita por Sidney Kingsley e adaptada por Robert Wyler, irmão do diretor, apresenta a história do policial Jim McLeod, num momento inspiradíssimo de Kirk Douglas, que têm de lidar com os diversos casos que aparecem no 21º Distrito Policial de Nova York, com seu temperamento incisivo e inflexível (e por vezes, furioso). Num deles, que envolve um caso antigo de sua mulher, Mary (Eleanor Park, magnífica) ele demonstra exatamente aquilo que a sua profissão não permite: parcialidade. Com seu impulso em resolver o caso com suas próprias mãos, ele acaba se envolvendo numa série de incidentes que o fazem mergulhar cada vez mais fundo na sua amargura. Contando com um texto brilhante, que trafega da secura à ternura através de seus diálogos e galeria de personagens fascinantes (o ato final, quando Kirk destila sua metáfora sobre a memória, citando uma autópsia na qual o crânio é serrado - e há um corte maravilhoso para o rosto cheio de tristeza de Mary - um dos grandes momentos do Cinema), e com a direção segura e intimista de Wyler - o filme se passa basicamente na delegacia, e seu uso de closes e ângulos baixos é espetacular - Chaga é uma obra marcante, especialmente com seu final explosivo, que nega qualquer tipo de sentimentalismo barato e se mantém fiel ao seu tom amargo e pungente. Destaque também para a fotografia cristalina em preto-e-branco de Lee Garmes, colaborador de diretores como Josef von Sternberg, em O Expresso de Shangai, e Howard Hawks, em Scarface, ambos de 1932. Obra-prima.